Debaixo da sacada

Thursday, October 30, 2008

Desfecho V

Um dia parou de chover no meu jardim
Agora estou esperando a água secar
Colocar o pé quente na água fria pode dar febre...

Ficar deitado na cama deixa os ossos doendo, doendo...

Thursday, June 15, 2006

A rua da música da mamãe

Passeando aleatoriamente pela internet me chama a atenção uma crônica sobre a velha, mas não desconhecida, canção de rua ladrilhada de pedrinhas de brilhante. Parei defronte ao texto e o degustei pensando comigo um turbilhão. Engraçado como as coisas acontecem dentro de nós. Tantos anos de mocinha ouvindo a voz de mamãe balbuciar essa musiquinha e nunca me desvencilhei da imagem da rua onde os amores são possíveis. Uma pequena rua, ladeada por árvores frondosas, onde, à luz da lua, moças de vestidos rodados e rapazes galantes, de chapéu à mão, trocavam singelos olhares transbordantes de um amor inocente, não mais visto em tempos cheios de malícia.

A minha pequena rua ladrilhada sempre fora assim. Jamais pensei que poderia voar daquele cenário bucólico onde eu amargava um saudosismo de um tempo que jamais vivi. Os amores platônicos, vividos em intensidades de olhar e, por vezes, jamais realizados – o que os tornam ainda mais belos – e a lua agigantada no céu de estrelas sempre foram bem fixados dentro de mim. A minha rua, embora exatamente igual ao que dizia a canção, era apenas minha. Somente eu poderia dar o tom aos olhos, à luz e, ainda, à velocidade certa e necessária para que os olhares se cruzassem. Como outra pessoa poderia entender o que se passava dentro do coração daquela quase-juventude apaixonada? Não, aquela rua me pertencia. É como se a canção, em verdade, fosse apenas de mamãe, tão inaudível era o tom de sua voz. Não fossem meus ouvidos astutos, a rua seria apenas dela.

E agora a roubaram de mim. Tiraram o tesouro que, alheiamente, afanei de minha Maria. Extirparam minha rua e colocaram tantas pessoas, um sol amarelo de um dia de primavera. Crianças e animais, pipoqueiro e filme ao ar, livre como a gurizada. Essa rua tão cheia de cores e movimentos não é a minha rua – platônica e saudosa. Pode haver beleza em árvores cheias de flores coloridas, movimento de pés e um leve conversar entre pessoas amigáveis, mas essa é a rua do Menino Maluquinho. Fique então com ela, o Ziraldo a dividiria bem melhor do que eu, que optei nem ao menos pensar nesse tesouro para que um sonhador atento não pudesse ler meu coração e levá-la de mim.

Levaram. Eles apenas esperaram que eu crescesse e precisasse trabalhar e me distrair com essas coisas de gente grande para a levarem para tão longe. Exatamente como eu fiz com mamãe, que, distraída, balbuciou aquele poema perto de uma menina malvada que transformou também o sonho dela.

Acho que vou pedir perdão pela dor que ela ainda deve carregar.

Sunday, June 04, 2006

Devaneios de um contínuo

Era já noite. Dia inteiro cansando. Tempos de calor me deixam desconcertado. Penso que suar é exercício repelente. Depois de um banho frio, a casa fria também, fui ver a correspondência (prática já solitária para uma casa cheia, quiçá para um sujeito eremita como eu). Nenhuma carta ou telegrama - ainda mandam cartas? - algumas contas e um panfleto daqueles porcamente datilografado, de cópias baratas e pela metade. Seria algum trote? Folheto estranho... cheio de siglas... bonitinhas, bonitinhas. Vazias, vazias.

Ali, depositado no sofá, com o folheto em mãos parei encarando aquelas letrinhas letrinhas. O que significariam? DPC... pensei por um instante. Dor Pontiaguda no Coração? Um sujeito tão só, colecionador de fitas cassetes e contínuo em um hospital não resultaria em coisa diferente. Diagnóstico: hipocondríaco.

Um pequeno gole no copo de rum barato. TAFIC... Transtorno de Agorafobia Influenciado pela Culpa? Hum... nome estranho. Ninguém o batizaria assim. Minhas mãos começaram a suar. SAT. Sensação Aterrorizante ao Trânsito. Sim, claro. Isso sim faz sentido. O trânsito da capital é caótico, assaltos a cada esquina. Essa sensação eu tenho e a classificaria dessa forma.

Nesse momento começo a me simpatizar pelo pequeno papel aporcalhado. Outro gole. ISS. Ímpeto de Sofrimento e Suicídio. FNDE. Funções Natais em Descontrole. Uau, eu estou ficando bom! - resmunguei dando um sorriso largo. FUST... o que seria isso? O sorriso deu uma pequena amarelada por ter comemorado antes da hora. Seria Frustração Unânime de Trabalho em Setor? Não, não... outro gole para não desanimar. Que o F era de Frustração estava óbvio, mas que tipo de frustração? Eu mesmo sentia um sem número delas. Frustração Única por Ser um Tapado? Quando Mary me largou ela me chamou de T-A-P-A-D-O. Assim, bem pronunciado. É... deve ser isso. Não me ative mais tempo e passei adiante, afinal, Mary sabia das coisas.

Logo abaixo, uma bem grande: FNDCT. Parei um instante para virar o lado da fita. Essa fita eu gosto porque ela tem uma particularidade. A última música acaba pelo meio e no lado B consegui gravar do mesmo ponto em que parou. Gosto disso e da música também. É do A-ha. Chama ‘a fine blue line’. Não entendo inglês e não sei o que ela diz, mas acho que combina comigo. E ela pára no meio de uma palavra que eu gosto. É sonora.

Mudei o lado da fita e voltei ao papelzinho. Funções Neurológicas Dissociadas por Cargas tão Tensas. Ficou tão claro que abri o sorriso novamente.

Fui passando uma a uma. Era como fazer palavras cruzadas. Gosto muito de palavras cruzadas também. Guardo junto com as fitas, na mesma porta do armário, separadas por data de compra. CIDE. Compulsão por uma Identidade de Demência (esse é amalucado por uma vida inteira. Disso eu não sofro.). CNP. Catástrofe Neo-Paranóica. O que será isso? Mas se parece comigo.

CSLL... Essa parece faltar uma letra. Compulsivos Seriamente Ligados por Lesões. Que lesões? Provavelmente cerebrais. SEST. Nesse momento eu senti um frio na coluna e fui acometido de um medo inimaginável. Nunca conheci ninguém com esse transtorno. Tentaram suavizar nomeando como sugestões, mas eles não me enganam. Persona assim é non-grata. Não é seguro conviver com alguém que sofre de Sugestões Exibicionistas e Sadomasoquistas Tencionais.

Já ia chegando contente ao final da lista quando me deparei com uma mistura que me causou imenso pavor. Havia ali umas letrinhas que eu já conhecia. Tomei um gole grande, a garrafa já estava ao fim, fiquei então aterrorizado com a facilidade de uma sociedade nos dominar. Não que eu entenda de sociedade, apenas entendi os pormenores, as linhas não lidas. Afinal, também faço palavras cruzadas. São sublimares como eles chamam essas mensagens. Sociedade... Malditos e loucos. Querem mesmo nos escravizar, aliás, nos enlouquecer.

CPMF. Cidadãos Paranóicos pela Maturação Fetichista. E em extratos bancários! A fita do A-ha deve ter tomado sol. O som está estranho. Ou é minha paranóia se apoderando de mim. Acho que vou dormir.

Desfecho IV

O sentimento que se vai lá pelas entranhas é esquisito. Começa achando o mundo muito grande, tipo, grande mesmo. E termina pensando que ele é infimamente pequeno porque não existe nenhum pedacinho para mim.

Talvez ele seja bem grande, mas esteja tão cheio...

Monday, May 22, 2006

Desfecho III

Queria beijar um príncipe para que ele virasse um sapo.
Grande, gordo e feio.
Amar um Príncipe é muito difícil.
Todo mundo ama também...

Saturday, May 13, 2006

Desfecho II

O mundo é tão colorido...

Mas meus olhos, bicolor.

Triste como um fim de tarde ou um dia de calor.

Thursday, May 11, 2006

Desfecho I

Devo estar louco

Já ando falando sozinho

(dando até gargalhadas)

Acho que preciso de um diário

Tuesday, May 02, 2006

Fala!

- Fala

- Eu falo

- Fala

- Eu falo

- Fala

- Pergunta

- Fala

- Eu falo

- ...